Crítica aos Minimalistas

Os professores Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, e Neil A. Silberman, diretor de interpretação histórica do Centro Ename de Arqueologia Pública, na Bélgica, conhecidos como minimalistas, argumentam que a existência de Davi e a descrição inteira da história de Israel na Bíblia não passariam de construções ideológicas elaboradas com habilidade, produzidas por círculos sacerdotais em Jerusalém, depois do exílio na Babilônia, ou mesmo em tempos helenísticos.

Trata-se de um viés interpretativo que considera que a história bíblica de Israel foi escrita com o fim de trazer honra ao passado desastroso do povo, em virtude dos reiterados cativeiros que veio a sofrer. Para recontar a história e trazer esperança ao povo, a casta sacerdotal teria criado a figura do rei Davi, como se fosse um ícone, um herói, que mudaria a perspectiva do povo em relação ao seu próprio passado.

Tendo consciência de que não sou historiador, tampouco arqueólogo bíblico, ouso humildemente em tecer breves considerações acerca dos ditos “minimalistas”: Davi não é o herói que pensam ter sido e sua história não foi inventada com o fim de esperançar Israel acerca de seu próprio passado.

Muitos eruditos discutem que remanescentes arqueológicos da época de Salomão estão faltando, em virtude de terem sido erradicados, por exemplo, pelas maciças construções de Herodes no monte do Templo, no antigo período romano. Além disso, a ausência de referências externas a Davi e a Salomão em antigas inscrições é bem compreensível, pois a era na qual se acredita que eles governaram (c. 1005-930 a.C.) foi o período de declínio dos grandes impérios do Egito e da Mesopotâmia. Portanto, não surpreende a inexistência de referências a Davi e a Salomão nos escassos textos egípcios e mesopotâmicos, seus contemporâneos¹.

Embora seja necessário destacar pontos a favor da arqueologia bíblica, acredito que também podemos destacar pontos cruciais para nossa caminhada cristã. Creio que, ao contrário do que os minimalistas sugerem, a história de Davi não tenha sido como pensam ter sido.

Davi certamente, de acordo com os relatos bíblicos, obteve grandes conquistas militares e políticas. Tal como essas conquistas, temos o conhecimento também de que foi um rei adúltero, que sobrepujou a lei à qual dizia que estava submetido, e se deitou com a mulher de um de seus oficiais de confiança. Refiro-me ao famoso episódio de adultério com Bate-Seba (2 Samuel 11).

Neste ponto, acredito que o rei Davi não tenha sido um dos melhores homens da história de Israel e, ao contrário do que os minimalistas pensam, o episódio bíblico seria propulsor não de honra, mas de vergonha. É preciso nos perguntar: o que significaria um passado “honroso” para um povo?

É espantoso observar como um pecado de tamanha gravidade tenha se tornado público, de conhecimento de cerca de 7 bilhões de pessoas depois de cerca de 3000 anos.

Como um rei, como Davi, não teria vergonha de confessar um pecado cuja pena seria a própria vida (Levítico 20.10) e lhe comprometeria a reputação, o poderio como monarca e suas afeições familiares?

Davi, longe de ser um herói humano que proporcionaria glória para Israel, foi um herói da fé. A honra de seu passado e, consequentemente, da história de Israel, está no reconhecimento de sua pequenez.

O que os minimalistas talvez não tenham entendido é que a lógica é inversa. Não são as guerras e as conquistas políticas que dão ao homem a “honra” e a “dignidade”. Mas é a confissão e arrependimento de tudo o que somos e queremos, de tudo aquilo que nos levaria ao arcabouço da vergonha. São esses a quem Jesus se referia: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus (Mateus 5:3).

Feliz foi Davi, pois foi “miserável” de espírito e, certamente, dele é o reino dos céus.

 

¹FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão; traduzido por Tuca Magalhães. – São Paulo: A Girafa Editora, 2003. pp. 181 e 182.

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