O Evangelho na vida de José Saramago

O Evangelho segundo Jesus Cristo

Vimos aspectos da Graça e do Evangelho na obra de Bertrand Russell, filósofo proeminente do século XX. Suas críticas às condutas humanas se coadunam com o proposto por Cristo, de que por essas razões veio o Filho do Homem, para reconciliar um relacionamento desprezado.

José Saramago, poeta e dramaturgo português que recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1988, escreveu o relevante romance “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, no qual propõe uma reinterpretação sobre a vida e morte do Nazareno.

Ao descrever em forma de romance o cenário da crucificação, Saramago nos inspira referenciando a vida medíocre que Jesus levou em relação à gloriosa morte que o exaltou¹:

“[A] afligida mulher é a viúva de um carpinteiro chamado José e mãe de numerosos filhos e filhas, embora só um deles, por imperativos do destino ou de quem o governa, tenha vindo a prosperar, em vida mediocremente, mas maiormente depois da morte.”

O interessante deste trecho é observar que a lógica que o permeia é que a entrega de uma vida proporcionou glória. De maneira semelhante, Timothy Keller, pastor norte americano, esclarece que²:

“Jesus perdeu todo o poder e serviu a fim de nos salvar. Ele morreu, mas isso levou à redenção e ressurreição. Então, se, como (…) Jesus, você cair em grande fraqueza, mas disser ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’ (Lucas 23:46), haverá crescimento, mudança e ressurreição.”

Podemos vislumbrar resquícios da mensagem do Evangelho

Certamente, Keller e Saramago descreveram o mesmo cenário de maneiras distintas. Mas algo nos deve chamar a nossa atenção na obra do romancista, quando ele descreve que³:

“Neste lugar, a que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo destino final e outros muitos o virão a ter, mas este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores. É ele, finalmente, este para quem apenas olham José de Arimateia e Maria Madalena, este que faz chorar o sol e a lua, este que ainda agora louvou o Bom Ladrão e desprezou o Mau, por não compreender que não há nenhuma diferença entre um e outro”

De fato, a morte de Jesus, como relatado, foi um momento estarrecedor. Naquele momento, o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. A terra tremeu, e as rochas se partiram. Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados (Mateus 27:51,52).

Ele venceu. Ele viveu.

José Saramago conhecia a profundidade da morte de Cristo? Ao lermos sua obra percebemos que ele não encontrou a expressão legítima do evangelho e por isso a morte de Cristo não impactou seu discurso conduzindo-o a compreensão da moral e ética da Bíblia em reconhecimento de Jesus como Deus que tornou-se homem. No entanto, ele descreveu o cenário onde ocorreu a maior prova de amor e aponta para essa cena como fonte de esperança para uma vida eterna.

Esperança essa que não é casta, mas que produz transformação e intimidade hoje, apontando para uma realidade futura e certa amanhã.

Em seu discurso vemos resquícios de uma verdade impactante advinda das implicações acerca da morte de Cristo, o que me leva a pensar: qual a minha perspectiva desse fato histórico? De que maneira ela foi única e gloriosa? Diante disso, por qual motivo Sua morte parece não fazer diferença em várias partes da minha vida?

“A salvação é uma operação de resgate, empreendida pelas pessoas cuja situação é tão desesperadora que não podem salvar-se a si mesmas… …embora os pecados sejam nossos, a morte é de Cristo: ele morreu pelos nossos pecados, levando a penalidade deles em nosso lugar.” J. Stott (A Cruz de Cristo)

 

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¹ SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo: romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 9.

² KELLER, Timothy J. Deuses falsos: eles prometem sexo, poder e dinheiro, mas é disso que você precisa?; tradução Érika Koblitz Essinger. – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010. p. 115.

³ Idem. p. 11-12.

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