Ensino religioso: uma violência contra a nação

Vivemos em um país de cultura hegemonicamente cristã. Por isso, pensar em ensino religioso no espaço público é permitir que alunos sejam expostos a uma doutrinação violenta.

O ensino confessional em uma instituição pública é uma:

VIOLÊNCIA CONTRA A FAMÍLIA E A LIBERDADE

Podemos entender que como criaturas sociáveis identificamos ao menos três esferas de poder às quais estamos submetidos. A primeira é a biológica, a segunda é a esfera privada, e a terceira é o espaço público. Essas categorias constituem o terreno adequado para criar homens livres e  inteiramente capazes de agir em comunidade.

Como seres biológicos lutamos pela vida e por sua manutenção. Os aspectos biológicos exercem poder ao nos apontar necessidades e limitações fisiológicas. A condição humana, por sua vez, é a vida que o homem impõe a si mesmo para sobreviver. O termo condição expressa um movimento de condicionamento dos comportamentos que deve acontecer na esfera privada.  Formada por: seus próprios atos, pensamentos e sentimentos – condicionamento interno – e pela cultura, contexto histórico, amigos e familiares – condicionamento externo).

A família é o ambiente de formação da esfera privada.

Ela é responsável pela formação da ideia de liberdade e autoridade. Essas percepções só podem ser edificadas eficazmente no contexto familiar. Onde tradição e a autoridade vinculada ao afetivo fazem dela o berço da cultura e a base da sociedade. Mas não apenas, a fazem também o centro da vida social (CASARIN 2007, apud GOKHALE, 1980, p. 21).

Quando o espaço público rompe barreiras do privado, assume para si a autoridade de exercer o condicionamento do indivíduo, edificando assim uma falsa ideia de autonomia. Enquanto isso, rouba dele a capacidade de auto governar-se. O valor da família é esvaziado, o que a torna desnecessária e um acidente social.

Sem estruturas fixas não há autoridade, sem autoridade não há liberdade. A liberdade é mal compreendida quando compreendida por “fazer o que quiser”, uma vez que a liberdade real identifica limites. A autoridade por sua vez aponta esses limites de maneira precisa, permitindo uma maior liberdade. Liberdade sem limitações nada mais é do que violência.

O fundamentalismo é apontado como o grande vilão da intolerância e da liberdade, mas em uma análise rápida podemos perceber que convicções pessoais, sejam elas religiosas ou não, nunca exercerão violência, quando existir uma clara distinção entre esfera privada e pública. Portanto, sempre que a autoridade pública advoga para si assuntos privados, violenta a família e consequentemente a liberdade individual. A família tem sido, e continuará sendo, a matriz mais poderosa para o desenvolvimento de cidadãos livres.

VIOLA A HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DA NAÇÃO

Se na esfera privada o sujeito é formado enquanto indivíduo e aprende o exercício da liberdade. Na esfera pública ele desenvolve a condição social: o movimento no qual homem se aproxima de sua humanidade a medida que edifica no entre – espaço que te coloca do lado do outro –  um bem comum e não particular. Para tanto, a tradição/ história se apresenta como elemento necessário para a identidade coletiva.

Quando você suprime aspectos da história de um povo, ou o limita a uma única perspectiva, você apaga a memória e identidade desse povo. Exerce, portanto, violência contra as outras religiões, outras maneiras de pensar, contra as conquistas e marcos estabelecidos e gera um ambiente de hostilidade.

Sem sua história, uma civilização não sobrevive.

O sujeito não encontrará o espaço adequado para construir e edificar por sua individualidade. Sem relação com o passado, não há identificação com o presente, o que reversa um futuro que violenta os avanços já conquistados.

O contrário disso é uma compreensão de liberdade e condicionamento (limites) bem clara, fazendo com que o valor de autoridade não se torne a imposição de uma vontade, ou opinião por força e manipulação, mas seguindo sua origem augere, seja o movimento de aumentar, ampliar a partir de fundamentos.

Identificar e garantir que a família exerça o seu papel social permite uma educação eficiente e significativa, onde o indivíduo é capacitado com aquilo que é necessário para que ele aprenda a situar-se no mundo enquanto indivíduo. Por sua vez para situar-se como pessoa política, ele precisará de uma identidade coletiva para que ao invés de destruir o que já foi conquistado, como indivíduo possa contribuir positivamente para o avanço e desenvolvimento público.

Portanto, defender a distinção das esferas de poder é amar o mundo de maneira que nos responsabilizemos por ele e capacitar a nova geração com as ferramentas necessárias para que ele se estabeleça enquanto ser individual e coletivo. Apresentando assim a oportunidade de empreender alguma coisa nova, ao edificar o mundo comum exercendo sua liberdade.

VIOLA A CRUZ E O ESTADO LAICO

As distinções das esferas de poder nos protegem enquanto indivíduos sociais. Se concluímos isso, não há espaço para que religião/ ideologias e estado sejam confundidos. Sempre que houve sobreposição dessas esferas o resultado foi a violência.

O estado laico protege os direitos individuais, incluindo a religiosidade e perspectivas ideológicas. Ele garante que as esferas de poder não se confundam. O ensino confessional em instituições públicas fere esse princípio, e como cristãos ferir esse princípio é opor-se à cruz de Cristo.

Jesus recusou o governo do mundo, que lhe foi oferecido por Satanás na tentação; fugiu da multidão que queria fazê-lo rei e deixou claro a todos porque fez isso quando estava diante de Pilatos em seu julgamento: “O meu reino não é deste mundo”. Com isso, a morte de Cristo também proclama a violência inevitável de um estado que advoga para si a prerrogativa de dizer o que não é, e o que não é verdade absoluta.

Quando questionado sobre se deveria pagar impostos, ele afirma “Dai, pois, a Cesar o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. É claro que seus opositores consideraram que suas convicções religiosas o levaria a se opor ao estado romano, mas na continuação do texto vemos que aqueles questionadores ficaram maravilhados e satisfeitos com a resposta dada por Cristo. Jesus de maneira clara estabelece uma distinção: a mensagem que ele carregava não atuava impositivamente sobre esfera política, da mesma forma o poder político não tinha governo sobre ela.

O espaço público é o Areópago, um espaço onde todos têm voz e vez.

Portanto, apresentar apenas uma perspectiva no ensino confessional ou no exercício de qualquer disciplina é o exercício de violência contra as outras esferas de autoridade, mais precisamente contra a família e a liberdade individual. Contra a história e desenvolvimento de uma nação, contra o ensino de Jesus Cristo.  Não sejamos incoerentes! Sabemos onde a má percepção do que esfera pública e privada pode levar.

Obviamente esse artigo não tratou da concepção dessas esferas, mas com essas afirmações quero levá-los a concluir que retrocedemos como nação nessa quarta-feira, dia 27 de setembro de 2017 quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que o ensino religioso pode ser confessional.

Para não correr o risco de ser reducionista dentro da discussão, preciso admitir. Mesmo dentro de todos os aspectos apresentado sabemos que a escola deveria ser um extensão do lar. Corroborando com a família na formação e desenvolvimento da criança. Para tanto, não a problema que o estado invista em uma formação religiosa, desde que em consonância com a vontade da família e de maneira transparente. Por isso, localmente a iniciativa de um ensino religioso é aceito como eco da vontade comunitária.

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